Por Elena O’Neill
Intelectual, ativista político, poeta, historiador, crítico de arte, editor e tradutor, representante e intérprete das vanguardas artísticas, literárias e políticas do começo do século XX, Carl Einstein (1885-1940) foi colaborador de revistas como "Hyperion", "Der Demokrat", "Die Opale", "Pan", "Die wiessen Blätter", "Die Aktion", "Die Pleite", "Das Kunstblatt". Frequentou os ateliês dos pintores cubistas e manteve uma amizade por mais de 30 anos com Daniel-Henry Kahnweiler. Foi cofundador da revista "Documents" (1929) com George Bataille e Michel Leiris, e colaborador de "Transition", de Eugene Jolas. Combateu na Primeira Guerra, participou do “Conselho Revolucionário dos Soldados” em Bruxelas, foi orador no funeral de Rosa Luxemburgo em 1919, se exilou em Paris em 1928 e se juntou à Coluna Durruti em 1936, a fim de defender a liberdade.
Entender o pensamento de Carl Einstein exige colocar lado a lado vanguarda artística e vanguarda política; seu ativismo político também se evidencia na escrita, para ele indissociável de um posicionamento frente ao clima político e à ideologia dominante. André Breton e Sigmund Freud figuram entre os que contaram com exemplares de "Negerplastik" nas suas bibliotecas. Publicado em 1915, em plena Guerra Mundial, durante a internação de Carl Einstein em um hospital militar, foi financiado pelo marchand Joseph Brummer e contou com imagens de objetos africanos pertencentes a coleções particulares.
No campo da arte, ainda hoje, a noção de forma levanta discussões passionais tanto entre defensores como detratores. Sobretudo, se consideramos o cubismo como instância na qual desaparece o conceito tradicional de objeto de arte para dar lugar ao conceito de forma. Suas principais noções plásticas decorreram, por um lado, da busca de um valor construtivo ou estrutural que liberou a visão da subordinação ao objeto e, por outro, de uma relação das formas entre si em prol de um conjunto unificado. Foi esse ordenamento livre, realizado com valores plásticos e sustentado pela visão, que afastou o cubismo da imitação e da aparência, abrindo a possibilidade de criação autônoma. Cubismo que foi o ponto de partida e a justificativa da análise de Carl Einstein.
"Negerplastik" é uma análise livre de preconceito e etnocentrismo que discute questões da tradição germânica da história da arte em diálogo com o cubismo e a escultura da África, os quais, segundo Carl Einstein, enfrentam por meios diferentes o mesmo problema. Construindo seu raciocínio através de cinco seções - “Observações sobre o método”, “O pictórico”, “Religião e arte africana”, “Visão do espaço em três dimensões” e “Máscaras e práticas semelhantes” -, Einstein declara a derrota da escultura europeia ao recorrer a meios impressionistas e pictóricos para transmitir emoções psicológicas. Critica a dinâmica dos processos psicológicos individuais, a análise das obras segundo o seu efeito dramático sobre o observador. Opõe forma realista ao realismo da forma. Diferencia massa de volume e distância de profundidade.
Para Carl Einstein, tanto o cubismo quanto a escultura negra lidam, de modos diversos, com a mesma dificuldade: o problema da profundidade enquanto resultado da experiência do espaço. O texto que, numa primeira abordagem, parece ser uma abstração carente de dimensão poética, vai-se revelando aos poucos como um esforço consciente de falar de algo profundamente enraizado na visão e na experiência vivida, deflagrada pelo quadro cubista tanto quanto pela escultura negra.
111 pranchas de 94 objetos diferentes, que acompanharam o texto original publicado em 1915, são reproduzidas nesta edição brasileira com legendas, que resultam do esforço de catalogação de Ezio Bassani e Jean-Louis Paudrat, especialistas em arte africana. As imagens não ilustram o texto e sim o repotencializam: mais do que um simples agregado de imagens e texto, "Negerplastik" alarga a compreensão de forma, hoje muitas vezes banalizada e reduzida à morfologia, ao formato, à composição. "Negerplastik" nos permite entender a forma como modo de pensar, dado conceitual, problema a enfrentar: enfim, nos incita a tornar-nos visualmente ativos. Ou, nas palavras de Carl Einstein em seu romance "Bébuquin ou les Dilettantes du Miracle", de 1912, “na forma, a visão ganha uma força que até esse momento tinha sido atribuída apenas ao conceito”. A força dessas 111 imagens faz com que "Negerplastik" não se resuma a uma discussão sobre conceitos e historiografia: também é uma história da arte africana, baseada nas relações plásticas que esclarecem a forma e a tornam visível.
"Negerplastik", um pequeno grande livro, condensa a discussão intensa e acirrada do começo do século XX e admite, ainda hoje, uma leitura a partir de vários aspectos. Ao ser publicado no Brasil, em 2011 - cem anos depois de Picasso e Braque incluírem tipografias em seus quadros, transgredindo as fronteiras entre palavra e imagem -, "Negerplastik" apresenta uma excelente oportunidade para repensar e rediscutir o problema da forma e da imagem, bem como a diferença entre ambas. Lançado pouco depois da versão brasileira da coleção "História Geral da África", organizada pela UNESCO, e pouco antes do lançamento da primeira tradução para o francês de outra obra de Carl Einstein, "Die Kunst des 20. Jahrhunderts" ("A arte do século XX"), "Negerplastik" vem em momento oportuno: coloca em questão o modo simplista como consideramos as produções materiais, inserindo a discussão em um contexto maior e mais complexo. A apresentação de Liliane Meffre, o texto de encerramento de Roberto Conduru e a orelha de Raul Antelo abrem ante nós essa discussão: Meffre apresenta um Carl Einstein participante ativo da vanguarda cultural européia, mediador cultural entre Alemanha e França, e suas relações constantes com a literatura, a política e a arte; Conduru indica relações dele com o pensamento alemão da época, com a crítica de arte no Brasil e com a arte afro-brasileira; Antelo observa a relação entre etnografia e estética em "Negerplastik".
Se "Negerplastik" levanta a questão da relevância da arte e da cultura africanas para o cubismo, porque não pensar as relações entre culturas de outras configurações espaço-temporais com a contemporaneidade? Não seria esta uma ótima oportunidade para abandonar uma história da arte baseada em pensamentos evolucionistas, visões teleológicas e alinhamentos históricos? Não seria a forma um dos eixos a partir dos quais pensar essas relações? Afinal, ao discutir seriamente o modo como abordamos a história da arte (e sua escrita), Negerplastik torna o debate inadiável.
Elena O'Neill é doutora em história social da cultura pela PUC-Rio
*http://oglobo.globo.com/blogs/prosa/posts/2011/11/30/resenha-de-negerplastik-escultura-negra-de-carl-einstein-418196.asp