Revelação: resultado divulgado ontem (18), em noite de lançamento do livro
de Glauber Rocha, confere a André Felipe Costa Silva os dois prêmios do
concurso promovido pela Editora da UFSC
O Concurso Rogério Sganzerla de Roteiros para Cinema e Teatro, promovido
pela Editora da UFSC, revelou na noite de quarta-feira (18) um novo talento
da dramaturgia catarinense. Sob os pseudônimos Ariosto Montanha e Moreno
Auc, André Felipe Costa Silva foi duplamente vencedor do concurso, para
surpresa do público, que esperava dois primeiros colocados. O nome do
ganhador foi divulgado pela secretária de Cultura e Arte Maria de Lourdes
Borges, em cerimônia na sede da Fundação Cultural Badesc, quando a Editora
da UFSC também lançou a reedição de "Riverão Sussuarana", única obra
literária do cineasta Glauber Rocha publicada em vida, que estava esgotada
no Brasil há mais de três décadas.
Formado em Artes Cênicas pela Udesc em 2009 e mestrando em dramaturgia pelo
Instituto Universitário Nacional Del Arte. (az.klimt@gmail.com), de Buenos
Aires, André arrebatou os dois prêmios, por uma decisão unânime da comissão
julgadora, com dois roteiros para teatro:"Suéter laranja" "em dia de luto" e
"Não sempre". “Temos com certeza uma revelação da dramaturgia aí”,
assinalou o diretor da EdUFSC, Sérgio Medeiros. “Duas criações premiadas de
um mesmo autor mostram talento e consistência”. Segundo o autor, ambas são
suas primeiras experiências completas com roteiro para teatro, mas ele já
fez algumas adaptações e está concluindo um terceiro roteiro chamado “A
distância” que deverá também dirigir.
Como prêmio, André terá seus roteiros publicados ainda este ano em forma de
livro junto com a biografia do autor e ainda três ensaios comentando suas
peças assinados pelos integrantes do Júri, as professoras do Curso de
Cinema da UFSC Clélia Mello, Dirce Waltrick do Amarante, do Curso de Artes
Cênicas, e Márcio Markendorf, do Curso de Literatura. Ator do grupo
Dearaque Cias, que participou da Maratona Cultural com a peça *Medo de
morrer longe de ti*, André não estava presente na cerimônia e recebeu a
notícia do resultado na manhã do dia seguinte (19) por telefone. “Fiquei
muito surpreso e feliz”, diz o artista, que completou 25 anos no dia 14
último. A alegria aumentou porque foi triplamente vencedor: no mesmo dia,
seu grupo de teatro também ganhou o Edital Nelson Rodrigues, da Funarte,
com uma peça em comemoração ao centenário de nascimento do autor.
Por considerar as peças de André muito superiores as demais criações
apresentadas, entre um total de 15 roteiros inscritos para teatro e cinema,
a comissão decidiu premiar duas obras do mesmo gênero. Um dos inscritos foi
desclassificado porque se tratava de um romance, explica Célia, que se
surpreendeu com a escrita distinta das peças vencedoras, *Suéter
laranja*mais leve e tragicômica e
"Não sempre" mais dramática. “Pareciam duas personalidades muito distintas
e não o mesmo autor. Essa maleabilidade mosra que existe aí um artista de
fato”, comentou a presidente do Júri.
O ANO GLAUBER ROCHA
Antes da revelação do resultado, a Editora da UFSC promoveu uma
mesa-redonda para discutir a importância do romance Viverão Sussuarana, de
Glauber Rocha que foi lançado no mesmo evento para o Brasil. “Com essa
publicação e a anterior, sobre a produção ensaística do cineasta
catarinense Rogério Sganzerla, cumprimos um compromisso perseguido há dois
anos de resgatar a obra literária de cineastas e intelectuais importantes
para a cultura brasileira”, registrou Sérgio Medeiros.
Ao abrir a mesa redonda, Jair Fonseca, que assina o posfácio do livro com o
ensaio “Guimarães Rocha e Glauber Rosa”, salientou o grau de experimentação
e ousadia com que o diretor de *Deus e o diabo na terra do sol* e *Terra em
transe* brinca com os mitos sagrados da cultura brasileira, como a figura
do sertanejo e o próprio significado emblemático de Guimarães Rosa, autor
de *Grande sertão: veredas*, que vira personagem da *desnovela* do cineasta
tropicalista. “O romance é uma injeção de estímulo nos dias de hoje, quando
a literatura brasileira se tornou tão careta”.
A intersecção pela linguagem e pela travessia do sertão entre os dois
autores brasileiros, que dividem, além das iniciais, uma intertextualidade
com a obra de James Joyce, outro inovador da linguagem narrativa, foi
aprofundada pela professora Dirce. “Sua obra subverte as classificações de
gênero, misturando novela, literatura de cordel, teatro, romance, poesia,
música”, explica. Para ilustrar o painel, alunos do Curso de Artes Cênicas
dirigidos por ela apresentaram uma divertida leitura performática da peça
de teatro contida no romance, dando vida aos personagens sertanejos,
coronéis e jagunços dessa parte da narrativa, de modo que os 30 anos da
morte de Glauber foram bem marcados em Florianópolis.
Texto: Raquel Wandelli (jornalista, SeCarte)
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